Painel realizado durante o Dia do Brangus, na Expointer 2026, destacou a tecnicidade e o protagonismo feminino no campo. Para Antônia Scalzilli, próximo passo é ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão do agro
A tecnicidade, a capacidade de gestão e o protagonismo feminino foram colocados no centro do debate sobre o futuro da pecuária brasileira neste domingo (30), durante a programação do Dia do Brangus, na Expointer 2026. O painel “A tecnicidade e o jeito feminino de fazer pecuária”, realizado no Centro de Eventos Carlos R. Sperotto, reuniu mulheres com diferentes trajetórias no setor para discutir liderança, inovação, sucessão, comunicação e os desafios de uma atividade cada vez mais orientada por dados e tecnologia.
Um dos principais pontos levantados durante o encontro foi a transformação do papel das mulheres dentro das propriedades rurais. Se, no passado, a presença feminina era muitas vezes restrita a determinadas funções, hoje elas ocupam posições diretamente relacionadas à gestão, à genética, à reprodução, ao manejo, à seleção de animais e às decisões estratégicas dos negócios.
Para a produtora rural e presidente do Instituto Desenvolve Pecuária, Antônia Scalzilli, essa mudança já aconteceu de maneira significativa dentro das propriedades, mas precisa avançar para os espaços onde são definidas as grandes estratégias do setor.
“A liderança dentro da porteira já foi conquistada. O próximo desafio é a ocupação dos espaços nas mesas de quem decide.”
A advogada e produtora rural defendeu uma transformação profunda na forma como o agro se posiciona diante da sociedade. Segundo ela, “a pecuária precisa de um giro de 180 graus”, tanto na maneira de produzir quanto na forma de se comunicar.
Na avaliação da produtora, o protagonismo feminino não deve ser tratado como uma questão de gênero, mas de competência. “Ocupamos lugares por competência e não por gênero”, afirmou.
Agro precisa ocupar espaços de voz
Outro eixo da fala de Antônia foi a relação entre o campo e a sociedade. Para ela, durante muito tempo o agro deixou de ocupar espaços importantes de comunicação, contribuindo para uma desconexão entre quem produz e quem vive nas cidades.
“Durante muito tempo, o agro não se comunicou”, afirmou.
A produtora defendeu que o setor precisa falar mais sobre seus processos, seus avanços tecnológicos e, especialmente, sobre preservação ambiental. Segundo ela, quem trabalha diretamente com a terra tem interesse direto em mantê-la produtiva.
“Terra degradada não produz. Somos os mais interessados na preservação.”
Nesse sentido, Antônia também questionou a narrativa que coloca o agronegócio como parte do problema ambiental. “O agro não é o problema do mundo, é a solução”, afirmou, defendendo que produtores e entidades precisam buscar espaços de voz e decisão para apresentar suas experiências e contribuir para o debate público.
Competência, tecnologia e novas gerações
As participantes destacaram a transformação pela qual passa o setor. Ângela Linhares da Silva, médica-veterinária da GAP Genética, lembrou que a presença feminina no campo era menor e que a evolução tecnológica abriu novas possibilidades de atuação, não só na gestão, como também na atuação operacional. Ela também destacou o crescimento do interesse de jovens mulheres por estágios e oportunidades profissionais no meio rural.
Suzana Salvador, também médica-veterinária, reforçou a importância do conhecimento e a atualização técnica para que as mulheres possam ocupar cada vez mais espaços e exercer protagonismo no campo. Ela destacou ainda a complementariedade entre habilidades e competências de homens e mulheres, bem como a tendência de retorno das novas gerações, apontando a sucessão como um dos grandes desafios do setor.
A publicitária do Condomínio Rural Weiller Rossana Weiller trouxe ao debate a importância da comunicação para aproximar os jovens do agro. Ao recordar sua chegada a um ambiente predominantemente masculino, destacou a necessidade de preservar a história e o legado das famílias sem transformar a tradição em uma barreira à mudança.
Segundo ela, “não se pode ficar preso ao legado”. Para Rossana, comunicar melhor o agro é também uma forma de atrair novas gerações. “O agro não é um projeto, é um propósito”, resumiu.
Brangus amplia participação na Expointer
O debate ocorreu em um momento de forte participação da raça Brangus na Expointer. Em 2026, a raça registra 195 animais inscritos, o maior número entre as raças bovinas no pavilhão de argola.
A entidade reúne atualmente 357 associados em 18 estados brasileiros e chega à Expointer com uma das maiores participações de sua história na feira.
Híbrido do cruzamento entre Angus e raças zebuínas, o Brangus combina características como qualidade de carne, fertilidade, produtividade, rusticidade e adaptação a diferentes condições climáticas, além de maior resistência a carrapatos e outros parasitas.

